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Blog · Saúde · 20 de outubro de 2026

Sentido de vida: entre escolhas, propósito e a construção de uma existência com significado

Entenda como o sentido da vida é construído por meio de escolhas, propósito, autoconhecimento e relações humanas. Conheça as reflexões sobre logoterapia, liberdade, responsabilidade e transformação pessoal apresentadas pelo Dr. Sam Ciros durante a Jornada de Psicologia, Neurociência e Saúde Mental da Faculdade EBPÓS.

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Faculdade EBPÓS
Saúde
Sentido de vida: entre escolhas, propósito e a construção de uma existência com significado

Encontrar sentido para a própria existência não significa necessariamente ter uma resposta pronta para a pergunta “qual é o sentido da minha vida?”. Na prática, a construção de sentido pode estar relacionada às escolhas realizadas, à maneira como cada pessoa se relaciona com o mundo, ao que oferece aos outros e à forma como enfrenta as circunstâncias que não pode modificar.

Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pelo Dr. Sam Ciros no terceiro dia da Jornada de Psicologia, Neurociência e Saúde Mental da Faculdade EBPÓS. A partir de referências da logoterapia, neurociência e de uma abordagem existencial, a discussão mostrou que falar sobre sentido de vida é também falar sobre liberdade, responsabilidade, autoconhecimento e ação.

Mais do que uma ideia abstrata, o sentido foi apresentado como algo que pode se manifestar na experiência cotidiana e acompanhar o indivíduo mesmo diante de momentos de dificuldade.


O sentido não precisa ser uma resposta pronta

Uma das questões centrais levantadas durante a palestra foi a compreensão de que o sentido não necessariamente aparece como uma grande descoberta ou uma resposta definitiva. Ele pode ser encontrado nas experiências, nas relações, no trabalho, naquilo que uma pessoa cria e oferece ao mundo e também naquilo que ela se permite receber.

A partir da obra de Viktor Frankl, o professor destacou duas formas importantes de realização de sentido: os valores de criação, relacionados àquilo que produzimos e oferecemos ao mundo, e os valores de vivência, relacionados à capacidade de experimentar e receber aquilo que a vida proporciona.

Isso amplia a compreensão sobre propósito. O sentido não está somente em grandes realizações profissionais ou em uma missão extraordinária. Ele também pode estar na forma como alguém exerce seu trabalho, cuida de outras pessoas, se relaciona, aprecia uma experiência ou se abre para a beleza presente em situações aparentemente simples.


A relação entre sofrimento e sentido exige cuidado

Outro ponto importante da discussão foi a relação entre sofrimento e sentido. A palestra apresentou uma distinção fundamental: o sofrimento não é necessário para que a vida tenha sentido.

Encontrar significado diante de uma situação difícil não significa procurar sofrimento, permanecer voluntariamente em uma condição prejudicial ou transformar a dor em uma espécie de prova de heroísmo. Quando uma situação pode ser modificada, a possibilidade de enfrentá-la e buscar eliminar sua causa continua sendo fundamental.

O sentido pode existir apesar do sofrimento. Quando determinada circunstância é inevitável e não pode mais ser modificada, a possibilidade apresentada pela logoterapia está na maneira como a pessoa se posiciona diante dela e na atitude que escolhe assumir.

Essa diferença é especialmente importante porque impede que o discurso sobre propósito seja transformado em uma romantização da dor. A construção de sentido não exige que alguém permaneça em situações evitáveis de sofrimento. Quando existe possibilidade de mudança, agir sobre a realidade também faz parte desse processo.


Nomear o sofrimento também faz parte do processo

Antes de falar sobre sentido, a palestra também chamou atenção para a necessidade de reconhecer o próprio sofrimento. Uma dor que não é compreendida ou nomeada pode permanecer sem uma elaboração adequada.

A reflexão apresentada relacionou esse processo à necessidade de identificar aquilo que está acontecendo, compreender suas causas e buscar caminhos possíveis para enfrentá-lo. Nesse sentido, reconhecer que existe sofrimento não representa uma fragilidade, mas uma condição para começar a lidar com aquilo que está sendo vivido.

Essa perspectiva também reforça a importância do trabalho psicológico. O profissional não precisa oferecer uma resposta pronta sobre o sentido da vida de uma pessoa. Seu papel pode estar justamente em acompanhar uma trajetória singular, ajudando o indivíduo a compreender sua experiência e a construir caminhos possíveis a partir dela. Na fala apresentada durante a Jornada, essa jornada foi descrita como específica, única e irrepetível para cada pessoa.


Três caminhos para encontrar sentido

A apresentação organizou a busca por sentido em três dimensões associadas à perspectiva de Viktor Frankl: valores de criação, valores de vivência e valores de atitude.

Os valores de criação estão relacionados àquilo que uma pessoa produz, realiza e oferece ao mundo. O trabalho pode fazer parte dessa dimensão, assim como uma obra, uma contribuição ou uma ação realizada em benefício de outras pessoas.

Os valores de vivência estão relacionados àquilo que a pessoa se permite experimentar e receber. Uma relação afetiva, uma experiência cultural, o contato com a natureza, um encontro ou mesmo uma experiência cotidiana podem adquirir significado quando são verdadeiramente vivenciados.

Já os valores de atitude aparecem especialmente diante das situações que não podem ser modificadas. Nesses momentos, a possibilidade de escolha pode estar na maneira como a pessoa se posiciona diante da realidade.

A história de Leila, apresentada pelo professor durante a palestra, foi utilizada justamente para ilustrar essas três dimensões: uma missão que ela assumiu, o vínculo e o cuidado com aqueles ao seu redor e a postura adotada diante de uma situação adversa.


Autoconhecimento: reconhecer as próprias condições para escolher

A discussão também apresentou uma relação direta entre sentido e autoconhecimento. As pessoas vivem dentro de diferentes condicionantes. Existem aspectos biológicos, experiências psicológicas, histórias familiares e circunstâncias sociais que influenciam suas possibilidades e escolhas.

Reconhecer essas condições não significa concluir que o indivíduo está completamente determinado por elas. Pelo contrário. A reflexão apresentada defende que, dentro dessas condições, ainda existe espaço para escolhas.

É nesse ponto que o autoconhecimento ganha importância. Para escolher de maneira mais consciente, é necessário reconhecer limites, possibilidades, necessidades e recursos disponíveis.

A metáfora utilizada durante a palestra ajuda a compreender essa ideia: a luz que poderia ser acesa por Leila já estava, em potencial, nas mãos dela. O que faltava era reconhecer o recurso que possuía e transformá-lo em ação. A partir dessa perspectiva, conhecer a si mesmo torna-se uma etapa para avançar além das próprias condicionantes.


Autotranscendência é ir além de si mesmo

A partir do autoconhecimento, outro conceito ganhou destaque: a autotranscendência.

Na abordagem apresentada, transcender a si mesmo pode significar encontrar algo ou alguém para além do próprio indivíduo ou buscar tornar-se uma versão melhor de si mesmo. Não se trata apenas de olhar para dentro, mas também de reconhecer que a existência se constrói na relação com o mundo.

Essa perspectiva rompe com uma visão excessivamente centrada no próprio indivíduo. O sentido não é construído apenas pela análise permanente de si mesmo. Ele também aparece quando uma pessoa se direciona para algo que considera significativo, assume responsabilidades, estabelece relações e transforma aquilo que possui em contribuição. É nesse movimento que o sentido deixa de ser apenas uma reflexão e passa a se tornar experiência.


A mudança precisa chegar à ação

Um dos pontos mais fortes da palestra foi a defesa de que reflexão, por si só, não é suficiente. O conhecimento precisa encontrar espaço na prática.

A ideia foi resumida na afirmação de que “mágica é ação”. A transformação não precisa começar com uma mudança gigantesca. Pequenas ações podem representar um primeiro movimento, especialmente porque mudanças exigem adaptação e tempo.

A própria discussão relacionou esse processo ao funcionamento cerebral, destacando que aprender, descobrir e incorporar algo novo exige energia. Por isso, mudanças precisam ser conduzidas com paciência e estratégia, evitando transformar a busca por melhores condições em uma nova fonte de pressão.

Essa perspectiva é particularmente relevante na prática psicológica. Não basta compreender intelectualmente uma situação se essa compreensão não consegue produzir algum movimento concreto na vida da pessoa.


Entre quem somos e quem podemos nos tornar

Outro conceito apresentado durante a palestra foi a ideia de que a saúde pode envolver uma tensão entre quem a pessoa é e quem ela deveria ou poderia se tornar.

Essa tensão não foi apresentada necessariamente como algo negativo. Ela pode funcionar como movimento, como orientação e como possibilidade de crescimento. É justamente nessa distância entre o estado atual e aquilo que se busca construir que pode surgir a motivação para avançar.

A metáfora do farol ajuda a representar essa relação. O marinheiro não navega em direção ao farol como se ele fosse o destino final. Ele utiliza o farol como referência para verificar se está seguindo a direção adequada.

Da mesma forma, o sentido pode funcionar como uma referência para avaliar escolhas, caminhos e atitudes. Não necessariamente como um ponto final a ser alcançado, mas como uma orientação para a trajetória.


Ciência e reflexão existencial precisam dialogar

A palestra também estabeleceu uma relação importante entre pensamento científico e reflexão existencial. A discussão não propôs abandonar a ciência em favor de uma interpretação puramente subjetiva da existência. Pelo contrário, defendeu a necessidade de fundamentar cientificamente aquilo que é utilizado como orientação na prática profissional.

Ao mesmo tempo, foi destacada a necessidade de reconhecer que questões relacionadas ao ser humano e ao sentido da existência possuem uma complexidade que não deve ser reduzida a uma única perspectiva.

O equilíbrio apresentado está justamente na possibilidade de aproximar o pensamento científico, a análise crítica e a dimensão existencial. A ciência oferece ferramentas para observar, formular hipóteses e testar possibilidades, enquanto a reflexão sobre sentido ajuda a considerar questões relacionadas às escolhas, aos valores e à maneira como cada pessoa conduz sua existência.


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